LANÇAMENTO: 3 de junho
A busca de evidências sobre a vida após a morte e a reencarnação.
Uma história de amor em luta contra o tempo.
E alguém que descobriu como alterá-lo.

Leia abaixo o Capítulo 1
CAPÍTULO 01
Ventos de Junho
27 de junho de 1992
O vento gelado de junho doeu em seu rosto.
Diminuiu os passos e parou ali na calçada. Sentiu que precisava gravar aquele momento exato. Sensação ou intuição, não importava.
No alto de um prédio, o relógio marcava 19h46. Por via das dúvidas, memorizou: 19h46.
O relógio digital, sem segundos, sempre dava a impressão de que o tempo estava parado. E se pudesse parar mesmo? Aquela era a hora perfeita para as horas pararem.
Mas o minuto virou 47 e Mariana deixou aqueles delírios bobos ali na calçada. Voltou a caminhar, abrigando as mãos geladas nos bolsos do casaco, sorrindo das besteiras que a gente pensa.
Ainda era cedo para um sábado, mas o elenco noturno do centro de São Paulo já começava a se formar nos bares, restaurantes e teatros da região.
Se entrasse na próxima travessa, chegaria mais rápido na avenida que levava ao metrô. Mas tinha a vida toda pela frente e era melhor continuar perto da área mais movimentada.
Ele vinha caminhando logo atrás e acelerou os passos, até que a puxou pelo braço e ficaram frente a frente.
— A gente já se conhece, não é?
Edu e aquele tom acusador. O olhar fixo, penetrante, difícil de sustentar.
Mariana ficou sem resposta. O que podia dizer? É claro que se conheciam, mas isso ela sempre soube. Sentiu a pressão em seu braço, mas o que doía era o coração disparado e saber que não podia contar.
Ela sorriu baixando o olhar e ele soltou seu braço. Mariana ajeitou a bolsa que levava a tiracolo e guardou as mãos de volta nos bolsos.
— Por quê? Você acha que me conhece?
Ele soltou uma risada alta e voltaram a caminhar.
Edu passava de uma emoção a outra em segundos. Intenso, dramático, contagiante quando animado. Frio em momentos de raiva. Não tinha mais ou menos. Naquele trecho da rua da Consolação, Edu fazia eco.
— Sei lá. Acho que é de tanto ouvir você dizer “a gente já se conhece, Edu!”. Lembra?
Ela riu, impressionada por ele ainda se lembrar depois de tantos anos.
Edu consultou o relógio.
— Ainda tenho meia hora. Café Mona Lisa pra fechar a noite? Deixei o carro ali perto.
Ela concordou depressa, embora tivessem que retornar parte do caminho já feito. Às 19h46, teria recusado, teria preferido ficar ali e abrir o jogo de uma vez. Mas agora, alguns minutos mais velha, teve a maturidade de aceitar um café para fechar a noite. Edu, incandescente, passou o caminho todo analisando o filme que viram naquela tarde.
Caminharam mais três quadras, e o aumento do barulho e do cheiro de café denunciava a proximidade do Café Mona Lisa.
As três mesas da calçada estavam ocupadas, mas já tinham se acostumado à mesa de sempre, nos fundos.
Entraram no café e ela teve a impressão de que todos olharam. Sempre achava isso. Edu não era lindo, nem alto, nem célebre, nem tinha nenhum detalhe que o destacasse.
Mentira. Tinha um detalhe: o nariz. Exagerado, desarmônico, escandaloso como Edu, dava um sotaque francês ao seu rosto. Com cabelos pretos, cheios, bagunçados, era um galã de cinema francês antigo e cheio de nariz. Parecia ter mais do que seus trinta e quatro anos.
Só que Mariana era o oposto: cabelos castanhos, cacheados, volumosos, e uma expressão meio ingênua. Parecia ter menos do que seus dezenove anos.
O galã francês barulhento e carismático e a virgem de cinema mudo. Ficavam à parte, concentrados um no outro, com o interesse de um primeiro encontro e a intimidade de uma vida.
Ivone, dona da cafeteria, trouxe dois cafés sem precisarem pedir. Ele voltou a ficar agitado.
— Você devia ter pedido chá.
— Me dá um desconto, Mari. Eu tô ansioso.
— É, o cientista vai virar cobaia.
— Você ri porque só está nessa pesquisa há um ano. Mas pra mim, já são dois. Dois anos! Foram tantas regressões que acho que já ouvi de tudo. Mesmo assim, dá um…
— Medo?
Ele não queria admitir que sim, dava medo. Sua resposta foi uma risada. Alta. Mas ninguém notou. Em uma das mesas, começou um coro de “Parabéns a você” e não se ouvia mais nada. Ele até colaborou com as palmas. Mas não esqueceu a conversa.
— Não tenho medo de regressão. É mais uma… apreensão. Você vai ver quando for sua vez, Mari.
Tarde demais.
Os quatro envolvidos na pesquisa tinham concordado em não se submeter a uma regressão a vidas passadas até o fim da primeira fase. Era uma forma de manter a objetividade. Mariana violou o compromisso com Tomás, que conduziu sua regressão em segredo meses antes.
Edu virou o café e checou o relógio.
— Mari, desculpe, mas a gente vai ter que ir.
Ele fez um sinal para Ivone trazer a conta e ela devolveu com o clássico gesto de “depois você acerta”.
Na porta, entre mesas ainda movimentadas, ele teve o impulso de oferecer o braço, imitando esquecidas galanterias. Caminharam as quatro quadras seguintes de braços dados e sem pressa, como um casal antigo.
— Gosto de você com esse sobretudo preto, meio clássico. Sabe o que você parece? Um galã de filme noir.
Ele gostou da imagem.
— Sério? Eu também gosto desse sobretudo. Comprei num brechó.
— Vai arrasar nesse… nesse negócio que você vai, esqueci o que é.
— Reencontro de ex-alunos de Filosofia. Pessoal que se formou comigo em 81.
Em 1981? Mariana ficou desconfortável. Não gostava de falar sobre datas. Não queria Edu fazendo contas, se lembrando dos quinze anos de diferença entre eles.
— Onde você deixou seu carro?
— Na próxima quadra. Já dá pra ver daqui.
Chegaram ao Santana de Edu, estacionado em uma travessa mais quieta, de comércios já encerrados naquele horário.
— Quer carona?
— Já te falei que não precisa. O metrô é aqui perto. Chego em casa em trinta minutos.
Ele não insistiu. E ali, ao lado do carro, ficaram. Ninguém se despedia. Ele podia falar alguma coisa, mas não falava. Podia ir embora, mas não ia. Nem ela. Frio de junho. Sobretudo antigo. Edu tão perto… Podia sentir o cheiro de café, cigarro e brechó quando ele perguntou:
— Segunda-feira a gente conversa?
— Segunda-feira.
— Eu vou ter reunião o dia inteiro, devo acabar no final da tarde, umas seis e pouco. Mas eu te ligo pra contar como foi e… a gente vê o que faz.
Ele entrou no carro, mas logo abaixou o vidro e a chamou de volta.
— Mas é o seguinte, dona Mariana. Amanhã à noite, o Paolo vai conduzir minha regressão. Dependendo do que você aprontou comigo em outras vidas…
— Quem disse que a gente se encontrou em vidas passadas?
Ele riu com fingida irritação.
— É meio óbvio! Você é um encosto, um karma na minha vida! Em todas as vidas, provavelmente!
O barulho do motor ligando quase abafou o provavelmente, mas Edu foi mais alto. Ela esperou até que o carro sumisse, com um sorriso difícil de desfazer. Estava feliz? Provavelmente!
O frio estava mais intenso. Foi andando sem pressa até chegar à estação, mais quente e aconchegante, com a falação alta e animada do entra e sai de sábado à noite. Mas não quis entrar. Não, não dava. Estava agitada demais para ficar parada dentro de um vagão. Queria contar pra todo mundo, parar as pessoas na rua e contar, drenar um pouco daquela emoção que não cabia mais.
Em todas as vidas! Impossível imaginar, anos antes, o incrédulo Edu dizendo algo assim. Mas todo o resto também parecia impossível.
E veio aquele sentimento forte, um desejo desesperado de dizer a si mesma, de nove anos antes:
— Vai ser exatamente como você imaginou.
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